terça-feira, abril 27, 2010

(De há dois domingos:)

O mundo aterra defronte; a luz pálida empresta alguma realidade aos prédios opacos. Como um enjôo, as primeiras pessoas convulsionam já levemente os passeios e passadeiras. Padece a cidade daquela azia anónima que antecede a azia própriamente dita. Por sob este cenário mal iluminado, os actores acompanham o guião a meia emoção. Mal reclinado numa cadeira gasta, um poeta pretende a cenografia respectiva. Tenta pintar o verbo, enquanto a engrenagem se não instala em definitivo, exterior e maquinal como um comboio em que o todo embarca rumo a uma paragem qualquer. O destino de hoje, sem ser incógnito, é supérfluo de inviolável. Há maresia naquele gingar de carruagem, e nas guinadas pré-programadas pelo percurso. Abafada e inodora, mas maresia. O enjôo aumenta.

Entre os demais passageiros, hipnotizados pelo instalar-se da frescura e luminosidade matutinas, alguém deixa pousar brandamente a sua mão de encontro ao vidro. Como que algo de sagrado emana daquele pequeno parque verde, que em câmara lenta se perde com dois ou três peões que o atravessam plácidamente, com o casal de namorados que nele sorri de mãos dadas, e mesmo com o sem-abrigo que em seus bancos viu um último reduto, senão de conforto ou liberdade, pelo menos deles tão ilusório quão o ar frio e os sons do tráfego não distante o permitem. A mão deste passageiro atípico está aberta sem estar espalmada - talvez num reflexo pré-consciente que, como uma pedrinha, veio desenhar círculos imperfeitos no lago da falta de esperança. Os restantes passageiros prosseguem nas mais diversas posições - sentados, debruçados sobre o seu corpo, ou agarrando a pouca firmeza o apoio para quem vai de pé, procurando em suma dar alguma continuidade ao repouso que deixaram para trás. Mas na alma, os seus braços estão caídos, como marionetas que aguardam pacientes o início do espectáculo a que obedecerão, com as doses de existência e gesto que se entender apropriadas. Nisto, as portas abrem-se, e chega de fora, por entre o som de passos e pedidos de licença, um eco antecipado das palmas que alguém lhes há-de bater.

Após se ver arrancado da sua espera letárgica por alguém que não conseguia passar, o passageiro afasta-se bruscamente num pedido de desculpas que cai seco como a mais recente rima de um poeta triste. "Estava difícil..." alguém lhe vocifera de trás. Se está. Tal como uma palavra não é a emoção que tenta exprimir, a presença naquele apinhado de gente é tão irrelevante que chega a ser absurda. Tal como a rima é só dois sons parecidos em promessa de harmonia, a conversa circunstancial com um conhecido que acaba de entrar é um placebo fraco para esta ruidosa paisagem sonora. Tal cacofonia dispersa é dura como uma rígida quadra de um soneto trágico. De significações que se perdem na distância, há como que uma paragem adicional algures neste labirinto ferroviário, e da qual por mais transbordos que se faça, não se consegue sair. Por toda a encruzilhada da cidade, as sombras dos escritórios ou das habitações caem sobre as suas mil estradas e ruelas e revelam um beco infinito e omnipresente. Um gato passa veloz, ao abrigo dos cinzentos pouco nítidos. Dois namorados beijam-se no parque já longínquo. Alguém mete por uma viela estreita e mal iluminada, em cuja placa se pode ler "Beco da Solidão".

O sino de uma escola faz-se ouvir nas redondezas. Sem pedir licença, um míudo apressado corre para fora do comboio. A cidade despertou sem pedir licença.